Brasil lidera transição, mas cortes na geração freiam novos projetos
O CEO da EDP América do Sul alerta que, apesar da liderança brasileira na transição energética, os cortes na geração de eólica e solar estão impedindo o avanço de novos projetos no país.
O Brasil, reconhecido por sua transição energética, enfrenta um desafio que ameaça o avanço de novos projetos de energias renováveis: os cortes na geração. João Marques da Cruz, CEO da EDP América do Sul, destacou que esta prática, comum em sistemas com alta penetração de fontes intermitentes como eólica e solar, tem impactado a viabilidade de investimentos, apesar do potencial do país.
Os "cortes de geração", ou *curtailment*, referem-se à redução compulsória da produção de energia de usinas eólicas ou solares, mesmo quando há vento ou sol. Isso ocorre devido a limitações da rede de transmissão ou excesso de oferta em determinados momentos. Essa interrupção programada ou reativa afeta diretamente a receita dos projetos, uma vez que a energia não gerada não pode ser comercializada.
Para investidores e desenvolvedores de projetos, a incerteza sobre a quantidade de energia que poderá ser efetivamente entregue à rede e, consequentemente, vendida, aumenta o risco financeiro. Isso pode levar à postergação ou ao cancelamento de novos empreendimentos, mesmo em um país com recursos naturais abundantes e forte apelo para energias limpas.
O Brasil tem se posicionado como um dos líderes globais na transição para uma matriz energética mais limpa, com uma alta participação de hidrelétricas e um crescimento robusto de eólica e solar. A capacidade instalada dessas fontes tem crescido significativamente, mas a infraestrutura de transmissão não tem acompanhado o mesmo ritmo.
A infraestrutura de transmissão, muitas vezes subdimensionada ou com gargalos em regiões de grande potencial eólico e solar, é um dos principais motivos para o *curtailment*. A falta de linhas de transmissão adequadas para escoar a energia gerada impede que o sistema absorva toda a produção, forçando os cortes e desperdiçando parte do potencial renovável.
A situação gera um paradoxo: enquanto o país busca expandir sua capacidade renovável para atender à crescente demanda e metas de sustentabilidade, os projetos se veem estrangulados pela própria infraestrutura. Isso eleva o custo da energia a longo prazo e diminui a atratividade do mercado para novos capitais, impactando o fluxo de investimentos no setor.
Para os profissionais da engenharia e gestores de infraestrutura, a questão dos cortes de geração impõe uma reavaliação dos projetos. A análise de viabilidade deve incorporar cenários de *curtailment*, exigindo modelos mais robustos de previsão de receita e custos. Além disso, a prioridade na expansão e modernização da infraestrutura de transmissão se torna um fator crítico para destravar o potencial de investimento e garantir a segurança energética do país.
Com informações de O GLOBO.
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